sexta-feira, janeiro 29, 2021

DEUS SE ARREPENDE?

Na língua portuguesa a palavra "arrepender" é verbo e "arrependimento" é o substantivo que indica o efeito da ação daquele verbo. O substantivo ocorre 24 vezes na Bíblia e apenas 02 vezes no Velho Testamento, sendo que ambas referem-se ao efeito de um ato de Deus e não do homem. 

As formas verbais de "arrepender" ocorrem 79 vezes na Bíblia e a procura nos mostra que o sujeito do ato de se arrepender invariavelmente é o SENHOR no Velho Testamento e o homem no Novo Testamento. 

Então Deus se arrepende? 

Em verdade não, aliás, é a Bíblia que responde essa pergunta ao dizer que "Deus não é homem, para que minta; nem filho de homem, para que se arrependa" (Nm 23:19 e I Sm 15:2). 

Então de onde advém as dezenas de referências ao arrependimento Divino no VT? 

Essas referências decorrem da tradução do hebraico para o português, e do grego para o português, de palavras que são bem diferentes. 

No Velho Testamento, as duas únicas ocorrências traduzidas como "arrependimento" advém de "nacham" e "nocham". O primeiro está em Jeremias 31:19 e profetiza sobre o que o povo um dia diria (que se arrependeria) e o segundo está em Oséias 13:14, quando o SENHOR diz que seus olhos estarão fechados para a compaixão, ou seja, que Ele irá derrotar o inferno sem arrependimento. 

Já no Novo Testamento, as 22 ocorrências de "arrependimento" advém quase todas do grego "metanoia", que significa mudança de mente. Esse termo é aplicado ao homem que se converte e não a Deus, até porque o SENHOR não muda (Ml 3:6).

Portanto, o arrepender-se do VT é ato Divino de compaixão em razão da justa aplicação da justiça ao objeto do amor do SENHOR, que é o homem. 

É como aquelas vezes que você corrige seu filho com a varinha e, ao vê-lo chorar, se arrepende, mesmo sabendo que fez o certo. Não se trata de  arrependimento de pecado e sim de sentimento de compaixão pelo sofrimento daquele que é alvo de sua justiça. 

Poderíamos dizer que todo pecado requer arrependimento, mas nem todo arrependimento advém de pecado.

Já o arrepender-se do NT é ato humano de mudança de pensamento e comportamento em razão de alguém admitir o seu pecado. 

O "arrependido" no VT é o nosso Deus, pois dentre os homens "ninguém há que se arrependa da sua maldade" (Jr 8:6). Já no NT o arrependido é o homem, pois o maior profeta da Lei começa o NT pregando algo novo até então, qual seja, que os homens se arrependam e não apenas sacrifiquem, entendimento esse que abre os caminhos do SENHOR Jesus. 

Daí por diante, toda a mensagem do NT é no sentido do arrependimento e de seus frutos, para os quais somos chamados, contristados, batizados e renovados (Mt 3:8, 9:13, 2 Co 7:9, Hb 6:6). 

O pecado separa o homem de Deus tanto no VT como no NT, mas as pazes com o SENHOR decorrem de atos diferentes nas duas alianças, pois no VT a  reconciliação exigia um sacrifício por ano de pecados e, no NT, a mesma reconciliação se opera por remissão, com um único sacrifício vitalício cuja eficácia pessoal exige fé não fingida em Cristo Jesus e sua obra e arrependimento de pecados, pois "com uma única oferta, aperfeiçoou para sempre quantos estão sendo santificados", de modo que "onde há remissão destes, já não há oferta pelo pecado" (Hb 10:14 e 18). 

Sola gratia de fato significa que a salvação é por graça por meio da fé, todavia, essa é a nossa parte na salvação. A parte de Jesus é julgar se essa fé é viva - evidenciada por obras de um legítimo pequeno Cristo - ou se é uma fé fingida e morta, fruto de uma crença em Cristo como sendo um servo do Ego em vez de Senhor dele. 

Um servo não paga a vida de seu senhor, mas sim o inverso, logo, quem quer ser salvo por Cristo precisa se voluntariar a ser seu servo, sem o que o resgate dele se torna inócuo. O servo, por sua vez, faz a vontade de seu senhor e não a própria. Muda de mente quanto ao certo e errado e enquadra seus atos à obediência de seu senhor. 


domingo, janeiro 17, 2021

DE PORTAS FECHADAS

No sermão do monte JESUS ensinou seus discípulos sobre a oração (Mt 6:5-15) repreendendo um modelo então vigente e indicando um modelo segundo o seu ensino.

O modelo repreendido é caracterizado por uma oração pública teatralizada e que repete necessidades humanas na esperança de recebê-las pelo esforço repetitivo. A recompensa desse tipo de oração é unicamente o reconhecimento dos que assistem a performance teatral, sem nada receber de Deus.

No modelo celestial JESUS apontou um quarto de portas fechadas, mesmo que Ele orasse em montes ou jardins. Creio que isso se relaciona com Cantares 5:2-5, onde o Amado bate à porta do quarto da Noiva. JESUS diz aos discípulos que eles deveriam orar ao Pai em secreto e que o Pai em secreto iria  recompensá-los. 

Creio que a recompensa de quem clama ao Pai no quarto secreto é ser revestido do Noivo. Isso é reforçado pelo fato de que nesse tipo de oração (privada) não devemos nos deter em declinar nossas necessidades já conhecidas de antemão pelo Pai, mas somente pedir por aquele que nos basta, o Noivo.

É por isso que devemos iniciar proclamando a santidade do nome do SENHOR, que é o nome de seu filho, JESUS, e pedindo o reino que acompanha o Rei onde Ele vai, pois é Rei dos reis. Se vem a Terra, aqui deve-se fazer sua vontade, pois o príncipe desse mundo lhe é sujeito. 

É tão verdadeiro que JESUS é a recompensa dessa oração de portas fechadas, que dos quatro pedidos dessa oração, dois são para que venha JESUS - venha o Reino e dá-nos o Pão do Céu -, e outros dois pedidos dele dependem, que é o perdão segundo alguém mortificado e a defesa contra o mal, que depende de estarmos nkele. 

Por isso, o que JESUS nos ensina no sermão do monte quanto a oração é que deve ser uma comunhão íntima com Ele, que é tudo o que precisamos e fonte de toda suficiência e recompensa. 

sexta-feira, janeiro 15, 2021

EXPLICANDO A PREDESTINAÇÃO

Olhe para o Sol. Você está olhando o passado, pois a porção de luz visível que inunda a sua retina e que você percebe em seu cérebro foi gerada oito minutos antes em nossa estrela. 

Deus é onipresente e seus olhos estão em todo lugar, mas não só em todos os lugares da Terra, mas em tudo, e isso para além do universo visível.  

Digamos que Deus resolva observá-lo a partir do Sol no momento em que você tem nas mãos uma paleta de 12 cores e esteja prestes a fazer a escolha por uma das cores.

Todavia, Deus também está ao seu lado na Terra no exato momento em que você faz a escolha pela cor vermelha, deixando as outras 11 cores para trás. A mente do SENHOR registra a sua escolha e imediatamente isso é compartilhado no ponto de observação no Sol, onde o registro luminoso da sua escolha só chegará 8 minutos depois. 

Portanto, a partir do ponto de observação no Sol, Deus saberia 8 minutos antes o resultado da sua escolha, podendo Ele predizer a cor que você escolheria, sem que isso representasse intromissão na sua escolha.

Agora distancie esse ponto de observação mais um pouco. Vá até 100 anos luz. Isso significa que Deus poderia predizer todas as suas escolhas antes mesmo que você existisse. 

E mais, Ele conheceria de antemão todos os seus passos e a sua escolha em aceitar o governo do seu Cristo, podendo determinar de antemão que todos os seus pecados (escolhas erradas) fossem apagados e que todas as promessas de benção para você fossem confirmadas ao longo de sua vida, livrando-o de todos os males e castigando-o quando você precisasse de disciplina. 

Distancie esse ponto de observação mais um pouco. Vá até 13 bilhões de anos luz na gênese do Universo. Deus poderia predizer todas as escolhas de todos os seres conscientes que Ele viria a gerar em todos os cantos do Universo, antes mesmo que esse existisse.

Isso é predestinação. É o saber antecipado da escolha livre e consciente que cada um fará. 

Deus nos conheceu antes que existíssemos e por isso nos predestinou para sermos conformes à imagem de seu Filho, a fim de que Ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou a estes também chamou; e aos que chamou a estes também justificou; e aos que justificou a estes também glorificou (Rm 8:29-30).

É por isso que Jesus disse que todo aquele que o Pai lhe desse, viria até Ele (Jo 6:37). 

Todo aquele que trilhará o caminho estreito, que passará pela porta estreita e que alcançará descanso para sua alma já foi conhecido, predestinado, chamado, justificado e já está assentado com Cristo nas regiões celestiais. Do mesmo modo, todo aquele que rejeitou seu chamado já está a ranger os dentes na perdição eterna. 

O que define esta predição é a sua escolha e a de mais ninguém. Deus não escolhe por você, pois a escolha dEle foi se doar por você. Escolha a Vida!

quinta-feira, janeiro 07, 2021

PORTAIS

 Muito se fala de portais ou "buracos de minhoca" que seriam passagens que conectam dois distantes locais separados pelo espaço-tempo. 


Essa ideia de portais talvez seja fruto de uma percepção humana ainda obscura sobre o sobrenatural que nos cerca.


Creio que a Palavra de Deus tem um modelo celestial das coisas terrenas e talvez não seja sem razão que o primogênito dentre os irmãos, o Deus encarnado, diz "Eu sou a porta; se alguém entrar por mim, salvar-se-á, e entrará, e sairá, e achará pastagens" (Jo 10:9).


Deus é espírito e considerando que Ele tomou para si um corpo humano e terreno para viver entre nós, ao voltar ao Céu dos céus Ele teve que dotar este corpo humano de uma imortalidade e uma incorruptibilidade para quê pudesse ascender com esse corpo. Ou seja, considerando que há corpo espiritual, assim como há corpo natural (pois este foi feito à imagem daquele), o SENHOR transformou seu corpo natural em um corpo espiritual na ressurreição, passando pela porta em seu espírito, rumo ao Céu dos céus.


O Criador semeou no planeta Terra o corpo do primeiro Adão, que se tornou corruptivel e mortal. Depois de um tempo veio colher um corpo incorruptível, o segundo Adão.


Sendo feitos a imagem do Criador, creio que cada um de nós tem no espírito um portal, e Jesus está do lado de lá desta portal, batendo para entrar e santificar nossa alma e nosso corpo, depois transformá-lo na ressurreição ou no arrebatamento, para então nos conduzir de volta por esta porta rumo ao Céu dos céus.


Para aqueles que recusarem abrir a porta à Jesus, essa mesma porta se alargará, conduzindo o homem a perdição. 


Vamos escancarar o portal para a dimensão celeste, chamá-Lo a entrar e, depois de transformados, sigamos com Ele por esse portal ao Paraíso.

terça-feira, janeiro 05, 2021

JESUS, o nome de YHWH

O nome próprio nos distingue uns dos outros, pois somos bilhões e sem um nome seria impossível nos individualizar.


O Universo, por ser o único que conhecemos, dispensa um nome próprio. 


Quando YHWH se encontrou com Moisés no Monte Horebe, o Eterno se apresentou como um fogo que queimava um arbusto sem o consumir. 


A comunicação do Eterno com a vida inteligente que ele gerou não está limitada ao que é verbal e menos ainda a um determinado idioma. 


Idiomas servem de limites (Gn 11:6-9) e YHWH não conhece limite algum, pois Ele é onipotente e ninguém há acima dEle que lhe possa impor limites, logo, a linguagem do Criador não é idiomática, mas numeral e simbólica. 


Isso não significa que Deus não possa usar o idioma. Ele pode todas as coisas e usou o idioma para falar com os profetas e também para falar com os discípulos, uma vez encarnado em Cristo. 


Ao queimar um arbusto sem o consumir, o Eterno se apresentou a Moisés e a nós de forma há muito nos dizer sobre Si mesmo. Ainda assim o Eterno usou da comunicação verbal para complementar sua apresentação, dizendo que ele era o Elohim de Abraão, Isaque e Jacó. Elohim é o plural adjetivo de Eloah, que significa elevadíssimo, excelentíssimo e que é traduzido do hebraico antigo como "deuses".


Portanto, primeiramente o Eterno fala sobre si mesmo dizendo muito com o símbolo da sarça ardente e, sabendo das limitações de Moisés, desce o discurso para se apresentar da forma como seria entendido, dizendo que Ele era o "deuses" adorado pelo pai e demais ancestrais de Moisés. 


Interessante observar que aquele que é o Deus Triuno se apresenta se dizendo Deus três vezes: "Deus de Abraão, Deus de Isaque e Deus de Jacó" (Ex 3:6).


Moisés entendeu, mas sabia que os hebreus viviam há 400 anos entre os deuses pagãos dos egípcios, cada um com seu nome próprio, por isso Moisés perguntou sobre o nome próprio com qual ele poderia referir-se ao Eterno (Ex 3:13). 


YHWH disse a Moisés que Ele era o Eu Sou, ou seja, negou-se a lhe dizer um nome próprio como tinham os deuses egípcios Amon-Rá, Tot,  Sekhmet ou Osíris. Se cada deus desse recebia um nome próprio que apontava para uma característica marcante, YHWH só poderia receber como um suposto nome próprio uma designação que sinalizava o que Ele é: Tudo em todos (I Co 15:28), por isso dizer de Si mesmo que Ele é o que é, ou seja, Eu Sou o que Sou (Ex 3:14).


É por isso que daí por diante o Eterno é referido por seu povo com um conjunto de quatro letras (YHWH) que indica este Ser Pré-Existente, cuja transliteração do hebraico antigo e a suposta pronúncia no português seria Iavé. 


Referimo-nos a Ele, no entanto, como Deus (iniciado em maiúscula), Senhor, Eterno ou Criador, justamente porque inexiste um "nome próprio" propriamente dito. 


Isto foi assim do tempo de Moisés, até que o Eterno resolveu esvaziar-se de sua glória e vir a Terra encarnado, quando determinou ao anjo Gabriel que comunicasse a virgem na qual o corpo do Eterno seria concebido e gestado que, enquanto homem, Ele deveria se chamar JESUS,  que significa salvador.


Quem viu a Jesus, viu o que do Eterno se pode ver (Jo 14:9), logo, se ambos são Um (Jo 10:30), então o nome próprio do Filho é o nome do Pai. É por isso que Jesus questiona seus discípulos perguntando "quem vocês dizem que Eu Sou"? (Mc 8:29), trazendo a si o mesmo "nome" que o Eterno reivindicou perante Moisés. 


Portanto, como o Filho revela o Pai, a partir dEle o nome próprio da divindade verdadeira é JESUS (salvador) e é esse o "nome sobre todo nome" (Fp 2:9), que toda língua confessará e debaixo do qual todo joelho se dobrará (Rm 14:11).


Quando Jesus ensinou seus discípulos a orar, Ele disse que deveríamos nos dirigir ao Eterno que habita o Céu dos céus sem chamá-Lo pelo nome (como faria um estranho), mas sim chamando-O de Pai e, já na sequência, passando a proclamar a santidade do Nome do SENHOR, que como vimos, é JESUS.


É por isso que eu oro, como nos foi ensinado, dizendo assim:


"Pai, santificado seja Jesus Cristo, o nome dAquele em cujo Corpo eu estou. Venha teu governo sobre mim para que meus atos confirmem esta santidade proclamada do Corpo do Filho e que a vontade dEle, que o Rei dos reis, tome a Terra, como já tomou o Céu dos céus, desde que Ele entrou pelos Portais Eternos e se sentou a tua direita no Trono do Universo. Vem nutrir meu espírito com a revelação da Palavra dEle, que é Pão do Céu, e me perdoa hoje, como até hoje tenho perdoado os que me ofendem. Impeça-me, com o que for necessário, de pecar segundo as tentações de minha própria cobiça e me livra do inimigo e suas obras. Amém". 










sexta-feira, janeiro 20, 2017

PORQUE JESUS NÃO CASOU?




Algumas pessoas se perguntam porque Jesus de Nazaré, o Cristo, não se casou. Elas deveriam se perguntar, na verdade, porque Ele não se casou ainda, ou seja, considerando que Cristo ressuscitou, que Ele vive e que voltará, Ele ainda poderá se casar!

É exatamente isto que diz o livro do Apocalipse, ao mencionar quanto à volta de Cristo que “vindas são as bodas do Cordeiro, e já a sua esposa se aprontou. E foi-lhe dado que se vestisse de linho fino, puro e resplandecente; porque o linho fino são as justiças dos santos” (Ap 19:7,8).

Diz a Bíblia, portanto, que Cristo é noivo e tem contratado – como na cultura judaica da época de sua encarnação – um casamento com sua noiva. E quem é esta Noiva de Cristo? A resposta requer uma breve reflexão a partir de várias passagens das Escrituras. Certa vez um saduceu, que não cria em ressureição, perguntou o seguinte a Jesus:

– “Mestre, Moisés nos escreveu que, se morresse o irmão de alguém, e deixasse a mulher e não deixasse filhos, seu irmão deveria tomar a mulher dele e suscitar descendência a seu irmão. Ora, havia sete irmãos, e o primeiro tomou a mulher, e morreu sem deixar descendência; e o segundo também a tomou e morreu, e nem este deixou descendência; e o terceiro da mesma maneira. E tomaram-na os sete, sem, contudo, terem deixado descendência. Finalmente, depois de todos, morreu também a mulher. Na ressurreição, pois, quando ressuscitarem, de qual destes será a mulher? Porque os sete a tiveram por mulher” (Mc 12:19-23).

O saduceu se referia à Lei do Levirato, comunicada por Moisés ao povo hebreu 1500 anos antes:
“Quando irmãos morarem juntos, e um deles morrer, e não tiver filho, então a mulher do falecido não se casará com homem estranho, de fora; seu cunhado estará com ela, e a receberá por mulher, e fará a obrigação de cunhado para com ela. E o primogênito que ela lhe der será sucessor do nome do seu irmão falecido, para que o seu nome não se apague em Israel” (Dt 25:5,6).

O saduceu, na verdade, não tinha dúvida alguma e não vinha em busca de conhecimento; ele apenas criara um dilema para que Cristo admitisse que não havia ressureição. Cristo lhe respondeu assim:

– “Errais vós em razão de não saberdes as Escrituras nem o poder de Deus? Porquanto, quando ressuscitarem dentre os mortos, nem casarão, nem se darão em casamento, mas serão como os anjos que estão nos céus” (Mc 12:24-25).

Portanto, Jesus corrigiu o saduceu dizendo claramente que haveria ressureição, mas indicou que a condição de cada um de nós após a ressureição não seria mesma de antes, ou seja, ressuscitamos, mas não para sermos os mesmos. Cristo disse que a ressureição do corpo haveria para nos tornar seres semelhantes a anjos, ou seja, que não se casam (aliança com um ser do sexo oposto) e nem se dão em casamento (ter relações sexuais).

Isto na verdade é um tanto óbvio, pois seres perpétuos não tem necessidade de perpetuar sua espécie, logo, não há porque o nosso “corpo celeste” (I Co 15:40) ser dotado da capacidade de reproduzir. Jesus nos dá uma noção desta realidade ao ressuscitar, pois a narrativa dos fatos posteriores a ressureição que consta dos Evangelhos demonstra que pessoas próximas a Jesus não o reconheceram logo após a ressureição (Jo 21:4), a ponto de que Pedro “voltou-se para trás, e viu Jesus em pé, mas não sabia que era Jesus” (Jo 20:14).

Muito embora o corpo ressurreto fosse diferente do original, ele de alguma forma era o mesmo, pois Jesus chegou a mostrar ao apóstolo Tomé e aos demais as feridas dos cravos em suas mãos (Jo 25:27), todavia, era um corpo cuja face certamente diferia da anterior (já que várias vezes não foi reconhecido de imediato) e que tinha faculdades sobrenaturais que desconhecemos, como o poder de ir e vir transcendendo barreiras de tempo e espaço (Jo 25:26, 21:4).

Portanto, o Jesus que se casará com sua Noiva não é o Jesus esvaziado de si mesmo, em forma de servo (humana), que se faz semelhante aos homens (Fp 2:7-8) e que fora o Jesus pré-ressureição. Também não será o Jesus com mera aparência angelical, visto nas aparições terrenas após a ressureição, mas será o Jesus Celestial, o Rei dos reis e Senhor dos senhores (I Tm 6:15, Ap 19:16) que foi entronizado após subir ao Terceiro Céu (I Pe 3:22), cuja “cabeça e cabelos são brancos como lã branca, como a neve, e os olhos como chama de fogo; cujos pés são semelhantes a latão reluzente, como se refinados numa fornalha, e a voz é como a voz de muitas águas” (Ap 1:14,15) e que aguarda o momento de voltar triunfante a Terra (I Ts 5:23) para tomar sua Noiva em casamento e instituir com ela um reino de mil anos sobre a Terra (Ap 20:6).

Logo, quando as Escrituras mencionam as bodas de Jesus, está se referindo à parte imaterial deste casamento, ou seja, a aliança com uma “ajudadora idônea” (Gn 2:20) para a construção de um projeto de vida comum. Em razão de Cristo ter glorificado o seu corpo (aparência angelical), não haverá neste matrimônio o “dar-se em casamento” (relações com vistas à perpetuação da espécie) e por isso mesmo a Noiva não é uma única pessoa, mas um Ser Coletivo a que denominamos “Igreja”.

É por isso que as Escrituras apontam para a conjunto das pessoas que recebeu o senhorio de Cristo como tendo algo em comum, uma assembleia (eclesia ou igreja). Esta assembleia foi mencionada como a Noiva de Cristo por João Batista (Jo 3:29), pelo próprio Jesus (Mc 2:19) e também pelo apóstolo João em sua visão na ilha de Patmos (Ap 19:7) e ao final é tomada pelo lugar onde viverá, ou seja, a Nova Jerusalém, razão pela qual João vislumbrou em sua visão “a santa cidade, a nova Jerusalém, que de Deus descia do céu, adereçada como uma esposa ataviada para o seu marido” (Ap 21:2).

É certo, portanto, que Jesus Cristo voltará para desposar sua Igreja, honrando-a perante todos os demais habitantes da Terra e estabelecendo com ela um reino terreno milenial. Enquanto isso a Noiva se prepara para o casamento, mas não sendo vestida por suas ajudantes, como de costume, mas ataviando-se a si mesma, pois “foi-lhe dado que se vestisse de linho fino, puro e resplandecente; porque o linho fino são as justiças dos santos” (Ap 19:8).

Isto significa que a Noiva de Cristo (a Igreja) está, no tempo presente, preparando-se para este casamento e tal preparação consiste em manifestar na Terra a Justiça do Céu. Quanto mais a Igreja manifesta a Justiça do Reino, mas bela e enfeitada fica aos olhos de seu Esposo, o Rei Jesus.

E que Justiça é essa? Bem, o tema sobre a Justiça do Reino de Deus é muito amplo, mas resumidamente significa manifestar em atitudes o que é certo segundo os valores do Céu, valores estes que deveriam estar governando a Terra, se nela não houvesse um usurpador, que é o inimigo de Deus (Lúcifer). Esta Justiça já foi sombreada, foi delineada previamente na Lei de Moisés, mas hoje, após o advento de Cristo, ela não é mais uma “justiça que vem da lei, mas a que vem pela fé em Cristo” (Fp 3:9) e esta “lei se cumpre numa só palavra: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo” (Gl 5:14).

Um último aspecto que precisa ser referido sobre a Noiva de Cristo é que assim como há sobre a Terra uma Noiva verdadeira, há uma que é falsa e que quer se fazer como verdadeira. Trata-se da “mulher assentada sobre uma besta de cor de escarlata, que estava cheia de nomes de blasfêmia, e tinha sete cabeças e dez chifres”, ela “estava vestida de púrpura e de escarlata, e adornada com ouro, e pedras preciosas e pérolas; e tinha na sua mão um cálice de ouro cheio das abominações e da imundícia da sua fornicação e na sua testa estava escrito o nome: Mistério, a grande babilônia, a mãe das prostituições e abominações da terra” (Ap 17:3-5). Esta falsa noiva é, sem dúvida, a Religião ou a religiosidade terrena.  

Assim como há Terra um movimento legítimo de trazer do Céu a vontade de Deus para a nós governar, há, também, um movimento que externamente em muito se parece com o primeiro, mas que consiste em soberbamente levar a vontade da Terra para ser feita no Céu. Este último movimento, há muito inaugurado por Ninrode na antiga Babel, avançou ao longo dos séculos, persiste até hoje é só será derrotado no final, como narrado no capítulo 19 do livro do Apocalipse.

Esta falsa religião é marcada pela iconoclastia (veneração de ídolos e personalidades), pela troca de bênçãos por falsa adoração – como Lúcifer propôs a Jesus no deserto (Mt 4:9) – por um acentuado “cambismo” (relação de comércio entre a Terra e o Céu) e pelo assassinato de toda e qualquer verdadeira voz profética que se levante para denunciar esta prostituição espiritual, como fez a rainha Jezabel (I Rs 19:1).

Sempre que alguém se levanta para denunciar que (falsos) líderes cristãos estão ensinando ao povo os “dez passos para ser abençoado”, ou coisa semelhante que implique numa visão de troca de benção por devoção, tais líderes condenam à morte a reputação desta voz profética, tendo-a por rebelde.

Porém, é certo que assim como Jeú veio cavalgando contra Jezabel e a atropelou para que fosse comida pelos cães (2 Rs 9:33), no fim virá o Rei Jesus cavalgando contra esta falsa rainha que a si mesmo se chama “igreja” (Ap 19:11), e a derrotará com a espada que sai de sua boca (Palavra de Deus), “a fim de que aves se fartaram de suas carnes” (Ap 19:21).

Assim é que há sobre a Terra hoje o falso e o verdadeiro, o Trigo e o Joio, a Noiva e a Grande Prostituta, a Nova Jerusalém e a Grande Babilônia, e só a intimidade com Deus na pessoa de seu Espírito Santo nos livrará de errar o alvo e seguir o que é falso. Que possamos, dia a dia, amar verdadeiramente ao próximo como a si mesmo, com toda a renúncia que isto implica, para que implantemos na Terra a Justiça do Céu e assim nos preparemos para encontrar o Noivo em sua vinda, com nossas lâmpadas cheias de azeite (Mt 25:4).  

Boa Sorte!


domingo, fevereiro 14, 2016

BABEL

Jesus Cristo ensinou as doutrinas do Reino dos Céus aos seus discípulos com o uso de linguagem figurada, mas especificamente a parábola (Mc 4:2). Já o Espírito Santo, que o Pai nos enviou em nome de Jesus para nos ensinar todas as coisas (Jo 14:26), segue o mesmo princípio didático, ou seja, foge da interpretação meramente literal – uma vez que a letra mata (II Co 3:6) – e usa a narrativa bíblica para ensinar, redarguir, corrigir e instruir no que é certo, uma vez que as Escrituras são divinamente inspiradas para isso mesmo (2 Tm 3:16).

É por isso que na Bíblia um rio que se abre para o povo passar nunca é apenas um rio, uma machado que flutua nunca é apenas um machado e um peixe que engole um homem por três dias nunca é apenas um peixe, pois cada substantivo e cada verbo apontam para o ensino de uma doutrina específica que nos é ensinada diretamente no espírito pelo professor Espírito Santo.

Debaixo desta convicção eu peço a sua atenção para a Torre de Babel, que está no capítulo onze do livro de Gênesis. O que esta torre nos diz?

Quando Noé e seus sete familiares saem da arca, Deus lhes determina que se multipliquem e que povoem as terras ao redor (Gn 9:7) e, como aquela geração havia testemunhado a quase extinção do gênero humano em decorrência do pecado (Gn 6:7), obviamente saíram da arca com um temor paralisante. Para que os homens pudesse reocupar o território sem medo de um novo dilúvio, Deus promete que não destruiria mais a raça humana pelas águas do dilúvio (Gn 9:11).

Em seguida Noé toma um porre de vinho e fica nu dentro de sua tenda, o que aponta para a fraqueza moral de um homem que fora de casa é um libertador, mas dentro de casa tem suas vergonhas expostas. Dois dos filhos de Noé (Sem e Jafé) cobrem o erro do pai com uma capa e evitam o escândalo, mas o seu terceiro filho, Cão, expõe a nudez de seu pai e zomba dela.

Jesus disse que “é preciso que venham escândalos, mas ai daquele homem por quem vem o escândalo!” (Mt 18:7). Este entendimento parte do pressuposto de que todos erram e que ninguém tem o direito de zombar e expor os erros dos outros. Cão foi amaldiçoado por seu pai Noé (Gn 9:25), de modo que a sua descendência (os cananeus) seria serva da descendência de seus irmãos (povos semitas e jafonitas).

Este é o contexto no qual a Torre de Babel é edificada.

Pois bem, Cão teve quatro filhos, dos quais Cuxe fora o primogênito. Cuxe, por sua vez, teve como primogênito a Ninrode, que era então o herdeiro da maldição de seu bisavó Noé. Não se trata, aqui, de fazer um julgamento moral se Noé deveria ou não ter amaldiçoado seu filho que errou, pois os personagens bíblicos não são, todos, modelos de comportamento, apenas Cristo é o modelo.

Ninrode fora um homem muito poderoso (Gn 10:8) e seu reino abrangia as cidades de “Babel, Ereque, Acade e Calné, na terra de Sinar”, de onde ele saiu para conquistar Nínive, na Assíria, terra que originalmente pertencia à descendência de Sem e não de Cão (Gn 10:10-11). A figura de Ninrode é associada à de um conquistador, um guerreiro e um homem valente, que sobrepujava homens e feras, caçando-os e reduzindo-os à servidão, tendo sido ele o primeiro escravagista mencionado na Bíblia.

O nome Ninrode significa “rebelde” e o historiador Flávio Josefo o descreve como um líder que pregava aos seus liderados “que a única maneira de afastar os homens do temor a Deus era fazê-los continuamente dependentes do seu próprio poder. Ele ameaçou vingar-se de Deus, se Este quisesse novamente inundar a terra; porque construiria uma torre mais alta do que poderia ser atingida pela água e vingaria a destruição dos seus antepassados" (Jewish Antiquities I, 114, 115)”.

Este personagem aponta, portanto, para um líder religioso rebelde, que não cria na promessa que Deus fizera de não mais destruir a raça humana pelo dilúvio. Ele se rebelou contra a ordem que Deus dera de avançar sobre a terra e ocupá-la, antes, ele voltou para terras já ocupadas pelos antepassados de seus pais e lá competiu com eles pelo território, aprisionando-os e dominando sobre eles.

Com seu reino unificado e recebendo tributos das terras conquistadas Ninrode constrói uma grande torre em sua cidade-sede, Babel. Deus havia determinado que os homens se espalhassem e certamente estaria com eles, guiando-os, onde quer que fossem. Ninrode usurpa esta função, fazendo-se único representante de Deus e obrigando a todos os demais a fazer a “obra” de Deus segundo a sua particular visão, ou seja, chegar ao Céu através de uma estrutura de tijolos e betume.

O interessante é que num mundo antigo onde as estruturas mais proeminentes eram construídas com pedra, Ninrode usou o barro, razão pela qual a Bíblia diz que “foi-lhes o tijolo por pedra, e o betume por cal” (Gn 11:3). Você já entendeu o sentido alegórico, ou seja, Ninrode usava o barro – que aponta para o homem – para construir um caminho para o Céu, de modo que o homem se torna apenas um instrumento para levar a vontade do verdadeiro rebelde da Terra até o Céu.

Enquanto no modelo cristão somos ensinados por Jesus a pedir ao Pai que venha o Reino dos Céus para a Terra, e que se faça na Terra a vontade do Deus do Céu (Mt 6:10), no modelo de Babel a ideia é inversa, ou seja, que vá o Reino da Terra aos Céus para que nos Céus se faça a vontade dos homens da Terra.

A narrativa da Torre de Babel se presta a nos ensinar um modelo que deve ser evitado a qualquer custo por todos os que são chamados a servir e conduzir o povo de Deus na Terra. As Escrituras nos mostram que quando o coração do povo está longe de Deus, Ele permitirá que os tais sejam cativos de Babilônica (II Rs 25 e I Cr 9:1), de lá só retornando quando entenderem amargamente (Sl 137:1) a importância de reedificar a Casa de Deus (Ed 2:68), que é o nosso templo interior (I Co 3:16).

Babilônia é um modelo religioso em que o “líder” se torna “poderoso na terra”, conquista novos lugares, dominar sobre ovelhas que deveriam ser pastoreadas, tudo para reduzi-las à condição de escravos que edificam a estrutura central, sob o falso argumento de que estão sendo servidas pelo “líder” e de que se obedecerem estarão cumprindo o seu lugar na estrutura.

A palavra de Deus para os que estão sob este controle é “saí do meio dela, ó povo meu” (Jr 51:45), pois as suas chagas não podem ser curadas (Na 3:19) e ela será abatida repentinamente (Ap 18:10).

Se Você acha que sair de Babilônia é deixar para trás o cajado de alguma liderança iludida por este modelo, sinto em dizer que pode ser bem mais complicado do que isso. Sair de Babilônia é, em primeiro lugar, tirá-la de dentro de Você e isto se faz com entendimento sobre os modelos Cristão e Babilônico, o que evita que pereçamos (Os 4:6).

A segunda coisa é não reduzir a nada o que Deus usou até aqui para te levar ao conhecimento dEle e para te guardar. Não é assim. Sadraque, Mesaque e Abednego eram crentes fiéis e prosperaram em Babilônia (Dn 3:30), aliás, enquanto o povo lá permaneceu, por sessenta e seis anos, três imperadores se sucederam e Daniel foi primeiro ministro de todos eles!  

É certo que o Reino de Deus vai sobrepujar ao Reino da Babilônia, mas o Reino de Deus não vem com visível aparência, ao contrário, ele está dentro de nós (Lc 17:20-21), portanto, quando fomos governados por “justiça, paz e alegria no Espírito Santo” (Rm 14:17), aí saberemos que o Reino de Deus está em nós, que nos pegou por dentro e que saímos de Babilônia, ainda que estejamos cercados por ela. Nesta condição podemos até governar em meio a Babilônia, tudo para que se cumpra o propósito de que a Casa de Deus seja, enfim, restaurada.

Feliz jornada de volta à Jerusalém!






segunda-feira, março 07, 2011

Entendes tu o que lês?

A Bíblia não é literatura comum. Não é texto, não é ciência, não é arte, não é filosofia e, ao mesmo tempo, é tudo isso e muito mais.
Quer entender a Bíblia? Você precisa de um guia. Uma passagem no livro de Atos (cap. 8) nos ensina este princípio. O relato conta que o Primeiro Ministro da dinastia etíope de Candace estava voltando de Jerusalém para o seu país, por volta do ano 37, vindo de uma peregrinação para adorar no Grande Templo construído por Herodes.
O ministro era conduzido no seu carro de tração animal e lia um papiro com o livro do profeta Isaías, quando um evangelista de nome Felipe se aproximou do carro e lhe perguntou:
– Entendes tu o que lês? Ao quê o nobre homem respondeu com outra pergunta:
– Como poderei entender se alguém não me explicar?
Então, Felipe subiu ao carro daquele distinto governante e passou a lhe expor sobre o tema central que permeia as Escrituras, ou seja, Jesus Cristo. Ao final da exposição o segundo homem mais importante de seu império pediu a Felipe que o batizasse. Aquele homem que em seu reino estava abaixo apenas da Rainha de Candace voltou com sua comitiva para seu reino tendo dado o testemunho de que o seu Senhor supremo era Jesus de Nazaré.
Isto só foi possível com o emprego de dois elementos indispensáveis que são: (1) um homem com fome e sede de Deus, disposto a adorar mesmo sem entender exatamente o que o levava a Deus e (2) um segundo homem cheio do Espírito Santo e de sabedoria (At 6:5) que obedeceu ao comando de Deus e se dispôs a ser canal para a revelação da Palavra.
Esta passagem nos mostra que se fosse possível conhecer a Deus por esforço próprio, o Primeiro Ministro etíope o teria feito. Aquele homem detinha todos os recursos da época, tanto assim que antes da prensa de Gutemberg, quando os escritos eram reproduzidos um a um por escribas (um trabalho complexo, demorado e caro), o etíope já tinha uma cópia do livro do profeta Isaías, e , ademais, tinha condições de peregrinar a Israel para a adoração no Templo, uma viagem por centenas de quilômetros em tração animal, passando pelo calor dos desertos.
Todos estes recursos não eram suficientes para trazer convicção ao coração daquele eunuco etíope, pois somente a revelação das Escrituras, possibilitada por um homem dotado do dom de sabedoria celestial e cheio do Espírito Santo poderia tornar o anseio daquele coração em profunda convicção, tanto que ele recobrou de Felipe que ele o batizasse imediatamente.
Outras duas passagens nos mostram que o dinheiro, o poder, a fama e o reconhecimento não podem revelar a um homem o que Deus tem para ele, pois isto só é revelado por quem detém a sabedoria celestial e é cheio do Espírito Santo.
Em Gn 41 vemos que o Faraó do Egito recebeu de Deus uma palavra de conhecimento, por meio de sonhos, sobre um período de sete anos de seca que adviria nos próximos anos e que poderia ter acabado mais cedo com o Império Egípcio, caso não houvesse um homem de Deus, José, em quem repousava o Espírito Santo, que era cheio de sabedoria espiritual (Gn 41:38-39) e que revelou ao Faraó o significado dos sonhos que este tivera.
No capítulo 2 do livro do profeta Daniel vemos que Deus também concedeu igual palavra de conhecimento por meio de sonhos ao Imperador Nabucodonosor, mostrando-lhe todos os reinados humanos que haveria dali por diante, sob um ótica da degradação da autoridade, e o imperador também não teria compreendido o sentido da visão se não houvesse junto dele um homem de Deus, Daniel, em quem também repousava o Espírito Santo (Dn 4:8) e que também era cheio de sabedoria espiritual (Dn 2:23).
Há, nestas duas passagens, frases que são reveladoras dos critérios de Deus no tocante à revelação das Escrituras Sagradas. Em Gn 40:8 é dito que “Porventura não pertencem a Deus as interpretações?” e em Dn 2:10-11 os magos caldeus, ao serem pressionados pelo Imperador quanto à interpretação dos sonhos disseram: “Não há mortal sobre a terra que possa revelar o que o rei exige”e “O que o rei exige é difícil e ninguém há que possa revelar diante do rei, senão os deuses, e estes não moram com os homens”.  
Tais passagens demonstram que compete a Deus e somente a Ele a interpretação das Escrituras Sagradas por Ele inspiradas. Todavia, como Deus deu a Terra aos homens (Sl 115:16) e como Ele nada faz na Terra sem comunicar aos seus profetas (Am 3:7), Ele conferiu a alguns homens o dom de sabedoria (I Co 12:8) para que, uma vez cheios do seu Espírito, interpretassem as Escrituras. Devemos lembrar que os Filhos de Deus são chamados de “deuses” (Sl 82:6), portanto, se somente os “deuses”podem revelar o que está oculto no que Deus diz, então sãos os seus filhos que hão de revelar Sua vontade, expressa em Sua Palavra.
Esta passagem nos mostra que a interpretação da Bíblia requer co-dependência do Espírito Santo, ou seja, é preciso que aquele que deseja revelação seja dependente do Espírito Santo, bem como aquele que auxilia este último na busca da revelação.
Para quem insiste em estudar a Bíblia apenas como um livro, por mera curiosidade ou duvidando em parte do caráter sobrenatural de seu Texto, a estes Deus reservou que permaneçam sempre confusos a respeito da Palavra (I Co 1:18-31), pois como o mundo não conheceu a Deus através do conhecimento, resolveu Deus se fazer conhecido por uma mensagem que para a maioria é loucura, qual seja, a “loucura da pregação”(I Co 1:21).
Se não fosse trágico seria engraçado ver algumas pessoas bem preparadas intelectualmente “tateando” quando o assunto é Bíblia. Normalmente iniciam dizendo que a Bíblia é um conjunto de livros dos quais já se perderam os originais e que elas foram alteradas ao longo dos séculos por quem detinha interesse em dadas interpretações e que por isso não podemos interpretá-la literalmente, etc, etc e tal.
Ignoram que se Deus não deixou rastro sobre a fidedignidade de sua palavra é justamente para que o crédito à Palavra não se apoiasse no conhecimento histórico, mas para que a certeza sobre o que nela está escrito se apoiasse no que não se vê, porque “a fé é a certeza das coisas que se esperam e a convicção de fatos que não se vêem” (Hb 11:1) e porque assim o homem faria o caminho inverso feito no Édem, ou seja, sacrificaria o “conhecimento”em prol da obediência cega.
Que o Espírito Santo continue seu ministério de nos ensinar todas as coisas (Jo 14:26), incluídas aí as revelações de sua Palavra e, através disso, de nos convencer de nossas condutas equivocadas, do que é certo para nossas vidas e, por conseguinte, do Juízo que um dia advirá ao mundo (Jo 16:8) e do qual temos a esperança de sermos poupados pela remissão da morte sacrificial de Jesus Cristo.   

domingo, fevereiro 06, 2011

Paráfrase 03: Nascimento de João Batista

Paráfrase 03: O Nascimento de João Batista (LC 1:5-25)

A Harmonia dos Evangelhos de A. R. Fausset, teólogo do século IXX, divide os evangelhos em 185 acontecimentos listados cronologicamente. O nascimento de João Batista é o acontecimento de n. 03, contado unicamente no Evangelho de Lucas, no capítulo 1, entre os versículos 5 a 25. Dispus-me a parafrasear este trecho de Lucas recontando os fatos em prosa, na terceira pessoa do singular, e adicionando dados de várias pesquisas sobre o que é relatado nas Escrituras. Não se trata de adicionar nada à Palavra de Deus – nunca ousaríamos fazê-lo –, mas de parafrasear o texto por escrito, exercício este que é feito oralmente há séculos nos ministérios de ensino e pregação da Palavra. Espero poder contribuir com a sua compreensão da Palavra de Deus.

Há mais de vinte anos o sacerdócio era exercido naquele que acabou sendo o último Templo ao Senhor construído em Jerusalém. Os mais de dezoito mil sacerdotes se revezavam nos dezesseis turnos de Eleazar e nos oito turnos de Itamar, completando-se vinte e quatro quinzenas anuais de serviço levítico no Templo construído por Herodes.

Diariamente mais de mil sacerdotes executavam as tarefas de adoração no Templo, cuidando para que tudo o que fosse sagrado pela Lei Mosaica, nos pátios e salas, se conservasse puro absolutamente. Eles eram responsáveis pelos pães oferecidos a Deus, pela farinha de trigo usada nas ofertas, pelos pães achatados feitos sem fermento, pelas ofertas assadas em frigideiras e pela farinha de trigo misturada com azeite. Eram também encarregados de pesar e medir as ofertas para o Templo, de louvar e glorificar o Senhor todas as manhãs e todas as tardes, sem contar as ofertas a Deus queimadas no sábado e nos dias festivos.
Zacarias, um sacerdote casado com uma piedosa mulher chamada Isabel, que era descendente de Arão, estava dedicando a Deus sua quinzena de sacerdócio ao SENHOR, no turno de Abias, provavelmente mês de tamuz, ou seja, meses solares de meados de junho ou julho, quando lhe coube, num dado dia de seu turno, a sorte de entrar no santuário para preparar as lâmpadas e queimar o incenso de especiarias perante o SENHOR.
Durante a ministração de Zacarias a multidão de sacerdotes permanecia orando em seu pátio respectivo, neste que era um momento solene e que ocorria apenas duas vezes ao dia, pela manhã e à tarde, como havia sido ordenado à Arão. Os demais também permaneciam orando, os homens no Pátio dos Israelitas e as mulheres e crianças no Pátio das Mulheres.
Zacarias adentrou o Santo Lugar portando tudo o que era necessário para o serviço: a chama do altar, o azeite para as lamparinas, o insenso, a resina que se extrai da mirra, o pó de ônica e o gálbano. Em sua mente reverente ele lembrava dos ensinos que recebera na longínqua infância sobre o primeiro serviço ao SENHOR feito por Moisés e também sobre a vez que o Rei Uzias foi confrontado por oitenta sacerdotes e ficou imediatamente leproso na testa por ter ousado oferecer incenso ao SENHOR sem ser da linhagem de Arão.
O nervosismo de Zacarias era visível, mas não a ponto de atrapalhar seu serviço. Ele fazia cada movimento com leveza e gravidade ao mesmo tempo. Chegara à velhice sem que o SENHOR lhe houvesse ouvido as preces para dar à sua esposa, Isabel, um filho seu. Ao menos agora ele poderia encerrar sua vida com a oportunidade única, que ocorria não mais do que uma vez na vida de um sacerdote, de adentrar ao Santo Lugar para o serviço do Candelabro e do Altar do Incenso.
Assim que Zacarias pôs os pés no Santo Lugar ele pode sentir o aroma que constantemente exalava dos pães da proposição, da combustão das lamparinas do Candelabro e principalmente das especiarias que queimavam com o incenso no Altar. Dirigiu-se então à sua esquerda, para o serviço do Candelabro, admirado do altar feito de madeira de acácia, todo revestido com ouro puro que ficava à frente da cortina do Lugar Santíssimo.
Diante do Candelabro Zacarias cuidava do pavio de cada um das lamparinas com um zelo sacerdotal, procurando fazer cada tarefa como se fosse a última, sem pressa, aproveitando cada segundo.
Encerrado o serviço do Candelabro Zacarias virou-se à sua direita, em direção ao Altar do Incenso, e foi aí que algo absolutamente inesperado para ele ocorreu, pois ele vislumbrou um anjo do SENHOR postado à direita do Altar. A figura angelical usava uma veste alva e finíssima e era de formidável aparência humana, de quem exalava serena autoridade.
Por uma fração de segundo passou pela mente de Zacarias que ele tivesse feito algo errado e que algum outro sacerdote tivesse vindo repreendê-lo, mas imediatamente Zacarias viu não se tratar de outro sacerdote. Convencido em seu íntimo que se tratava de um anjo do SENHOR, Zacarias ficou perplexo, não dizia coisa alguma e um temor reverencial tomou conta dele, o que foi interrompido pelo anjo, que disse:
– Não tenha medo, Zacarias, pois Deus ouviu a sua oração! A sua esposa vai ter um filho, e você porá nele o nome de João. O nascimento dele vai trazer alegria e felicidade para você e para muita gente, pois para o Senhor Deus ele será um grande homem. Ele não deverá beber vinho nem cerveja. Ele será cheio do Espírito Santo desde o nascimento e levará muitos israelitas ao Senhor, o Deus de Israel. Ele será mandado por Deus como mensageiro e será forte e poderoso como o profeta Elias. Ele fará com que pais e filhos façam as pazes e que os desobedientes voltem a andar no caminho direito. E conseguirá preparar o povo de Israel para a vinda do Senhor.
Passou pela mente de Zacarias naquele momento que a benção infelizmente havia chegado tarde e por isso ele levantou uma objeção ao que o anjo havia dito, respondendo:
– Como é que eu vou saber que isso é verdade? Estou muito velho, e a minha mulher também.
Assim que Zacarias proferiu tais palavras se descortinou diante dele a sua própria incredulidade.
Ele percebeu imediatamente, pela serenidade com que suas palavras foram recebidas pelo anjo, que suas orações haviam sido atendidas de uma maneira que ele e sua esposa nunca imaginariam. Por um momento ele temeu que tais palavras pudessem lhe comprometer a benção, impressão esta que se dissipou com a réplica do anjo, que disse:
– Eu sou Gabriel, servo de Deus, e ele me mandou falar com você para lhe dar essa boa notícia. Você não está acreditando no que eu disse, mas isso acontecerá no tempo certo. E, porque você não acreditou, você ficará mudo e não poderá falar até o dia em que o seu filho nascer.
Zacarias sentia-se muitíssimo grato pela reprimenda, especialmente porque seu filho estava a caminho e suas palavras de incredulidade não haviam comprometido a promessa de Deus trazida pelo anjo Gabriel. Zacarias viu-se inserido, de uma hora pra outra, num grande plano do SENHOR para Israel, pois porque outro motivo DEUS enviaria Gabriel, o anjo que havia ministrado ao profeta Daniel, para lhe comunicar o nascimento de seu filho?
Apesar de mudo, ele se sentia confortado e compreendia perfeitamente que esta medida era imprescindível para evitar que ele, dali por diante, proferisse alguma palavra de dúvida que colocasse em risco a benção que lhe fora anunciada. A dúvida de Zacarias estava fincada em décadas de espera e na convicção de que sua esposa não geraria descendência, já que detinha idade avançada.
O anjo havia desaparecido assim que encerrara suas palavras com o velho sacerdote, que agora estava mudo. O serviço no Altar do Incenso ainda precisava ser feito e Zacarias, chorando e grato a DEUS, arrumava entre as pontas do altar o incenso e as especiarias para pôr o fogo sobre eles.
O aroma do incenso passou a encher o Santo Lugar e Zacarias foi tomado por um êxtase de verdadeira adoração e compreensão do significado da ministração sacerdotal ao SENHOR, motivo pelo qual o velho sacerdote acabou demorando para sair do Santo Lugar, fazendo crer a alguns que havia morrido durante o serviço.
Zacarias saiu do Santo Lugar caminhando vagarosamente, um passo depois outro, olhando para seus irmãos levitas à porta do Santo Lugar e desejando ardentemente lhes falar da maravilhosa experiência vivida durante sua ministração. Ele respondia aos irmãos por acenos e não demorou muito para que eles compreendessem que Zacarias havia tido uma visão no Santo Lugar.
A quinzena do turno de Abias se encerrou dias após e Zacarias voltou à região montanhosa de Judá onde residia com sua esposa Isabel. Lá ele permaneceu mudo e meditando no que ocorrera neste último período anual.
Zacarias sabia que sua esposa Isabel partilhava com ele a incredulidade que demonstrara diante do anjo Gabriel, portanto, sabendo em seu íntimo que sua esposa apareceria grávida, não tentou comunicar-lhe o que o anjo lhe havia dito. Temia que o espírito de incredulidade usasse a boca de sua esposa, já que não podia se valer de suas próprias palavras por ter ficado temporariamente mudo.
Isabel há muito julgava que não poderia ter filho, primeiramente pela aparente infertilidade que tanto poderia ser dela, com de seu marido, mas, ademais, pelo fato de que já contava com idade avançada. Por isso mesmo Isabel demorou a aceitar que as mudanças em seu corpo senil significavam uma gravidez, ainda que soubesse que seu marido havia retornado de Jerusalém tendo vivido uma experiência que, mesmo àquela altura, mudaria suas vidas.
Confirmada a gravidez, não foi surpresa para Isabel que seu marido já soubesse e recebesse a notícia com lágrimas de gratidão à DEUS e terno carinho à sua companheira. Disse Isabel a seu esposo:
– O SENHOR se lembrou de mim, olhou para a minha situação e retirou de sobre mim a vergonha da esterilidade.
Temendo a incredulidade que até então não havia sido liberada por palavra, quer sua, quer de seu esposo Zacarias, Isabel ocultou de seus parentes e vizinhos a sua gravidez por mais de cinco meses, revelando-a somente quando seu ventre não deixava dúvidas a quem quer que fosse de que ela aguardava o nascimento de um filho.
Assim, esta passagem do anúncio do nascimento de João Batista nos revela a importância do silêncio enquanto se aguarda a benção e diante da impossibilidade de confessar a vitória com palavras. Quando a incredulidade passa a assediar o crente não é por outro motivo senão para que ele faça como fez Zacarias diante do anjo Gabriel, ou seja, que levante uma objeção; que saque, do plano das impossibilidades do mundo natural, um argumento que se oponha ao que DEUS, em sua onipotência e absoluta indiferença para com o que é “impossível”, queira fazer por seu infinito poder.